Modelo exportador de manufaturados e crescimento no regime de 1964

Luiz Carlos Bresser-Pereira

Revista Anistia Política e Justiça de Transição n.10, julho/dezembro 2013: 336-367. Utiliza textos do livro A Construção Política do Brasil que estava, então, sendo escrito.


O regime militar de 1964 nasceu de crise financeira e de crise política, e terminou igualmente com crise financeira e política, depois de haver, nesse interim, alcançado altas taxas de crescimento acompanhadas de forte concentração da renda. Nesse período houve a consolidação do capitalismo brasileiro, o que abriu espaço para o surgimento, a partir de 1985, de uma democracia consolidada. Isto, entretanto, não significa que o autoritarismo tenha sido instrumental para a democracia. O Brasil já tinha, em 1964, uma sociedade suficientemente desenvolvida para que a continuação do desenvolvimento econômico ocorresse no quadro da democracia. O ajustamento econômico aconteceu nos três anos do governo Castelo Branco. A retomada do crescimento começou em 1967, quando o governo militar adota uma estratégia desenvolvimentista semelhante àquela por Getúlio Vargas para desencadear a revolução industrial brasileira. Através desse novo modelo de crescimento baseado na concentração de renda da classe média para cima, criava-se mercado para a indústria de bens de luxo, principalmente para os automóveis. Ao mesmo tempo, o país coloca em segundo plano o modelo de substituição de importações e tem início uma política de exportação de manufaturados altamente bem sucedida. Essa política neutraliza a doença holandesa (uma sobreapreciação permanente da taxa de câmbio que impede a industrialização de um país) e permite que as melhores empresas industriais brasileiras tornem-se competitivas no plano internacional. Entre 1965 e 1985 a participação dos manufaturados na exportação total cresce de 6 para 60%. Entretanto, governo ignora o choque do petróleo de 1973, e resolve crescer com poupança externa. O resultado é a crise financeira da dívida externa, que se desencadeia em 1979. Não obstante o caráter financeiro da crise e de ter sido ela a causa da alta inflação e da estagnação dos anos 1980, o neoliberalismo triunfante nos Estados Unidos logrará convencer os brasileiros que a crise fora causada pelo esgotamento do modelo de substituição de importações - uma estratégia de industrialização que já se esgotara 20 anos antes. Esta crise facilitará a vitória da grande coalizão de classes democrático- popular que, em 1985, estabelece a democracia no Brasil.



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