The Political Construction of Brazil

2017. An encompassing analysis of Brazil’s society, economy and politics since the Independence. A national-dependent interpretation. Three historical cycles of the relation state-society: State and Territorial Integration Cycle (1822-1929), Nation and Development Cycle (1930-1977) and Democracy and Social Justice Cycle (1977-2010). Crisis since then. (Book: Lynne Rienner Publishers)

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Macroeconomia Desenvolvimentista

2016. With José Luis Oreiro e Nelson Marconi. Our more complete analysis of Developmental Macroeconomics – the central economic theory within New Developmentalism. (book)

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Quem pagará? Às custas de quem?

Luiz Carlos Bresser-Pereira

Nota no Facebook, 2.9.2018

Hoje, os dois jornais de São Paulo circularam com quatro páginas inteiras de anúncio da Escola Concept, e leio na Folha uma notícia semelhante: “Marca de luxo francesa lança xampu por R$ 330,00”. Quem pagará por esses luxos? Não é o povo, não é a classe média tradicional, não são sequer os relativamente ricos. São os muito ricos, são os defensores do liberalismo econômico vigente no Brasil desde 1990. Mas em troca essas elites, que pensam educar seus filhos para serem semideuses, oferecem o desenvolvimento econômico que beneficia a todos?
Não é o que leio na mesma Folha, onde a repórter Erica Fraga nos informa que “o governo Temer termina marcado pelo pior ciclo de crescimento em cem anos”. Estudo do economista Fernando Montero mostra que na atual década (2011-2020) a expansão média do PIB por habitante estará próxima de zero. Desde 1980, o PIB cresceu 1,6 por ano; o PIB por pessoa, portanto, cresceu menos do que um por cento ao ano.
A economia brasileira está, portanto, semiestagnada há quase quarenta anos. Percebi este fato pela primeira vez em 1999, e escrevi um trabalho a respeito; voltei ao tema em 2007, ao publicar o livro, Macroeconomia da Estagnação, quando o boom de commodities levava a direita e a esquerda a acreditarem que “o Brasil voltará ao desenvolvimento”. Insisti no tema em 2014, quando o país entrava em grave recessão. Voltei ao tema no livro que acaba de ser publicado, Em Busca do Desenvolvimento Perdido. Enquanto isso, a direita sonha com os anos dourados de FHC, que na verdade foram de crise e baixo crescimento, e a esquerda, com os anos dourados de Lula, que só foram melhores porque havia um boom de commodities e um compromisso com os pobres.
O Brasil não cresce desde 1999 porque suas contas macroeconômicas são deficitárias (a conta fiscal e a externa) e os seus preços macroeconômicos estão errados. Porque a taxa de juros é muito alta, a taxa de câmbio é apreciada no longo prazo, só se depreciando nos momentos de crise como a atual, e a taxa de lucro das empresas industriais é muito baixa quando não é negativa, impedindo que elas invistam e criem empregos. A taxa de lucro industrial é muito baixa porque a esquerda romântica acredita que câmbio apreciado garante bons salários para os trabalhadores, e porque a direita liberal está feliz com os juros que os muito ricos e a classe média tradicional, rentistas e financistas, recebem.
Felizes mesmo estão apenas os muito ricos que mandam seus filhos estudar em escolas alienadas e muito caras e compram xampu de R$ 300,00. A classe média tradicional, que inocentemente apoia o liberalismo econômico reinante no Brasil (que é próprio das “pessoas de bem”) não se dá conta que essa forma de coordenar o capitalismo é essencialmente causadora de baixo crescimento e crescente desigualdade. A alternativa desenvolvimentista pode ser também causadora de semiestagnação, como aconteceu com o governo Dilma, mas se for uma política econômica moderada que garanta o equilíbrio fiscal, o equilíbrio da conta-corrente, e preços macroeconômicos certos, o Brasil voltará a crescer. Vemos esses pontos na política econômica proposta nos programas de Lula e Ciro Gomes. Se, adicionalmente, essa política for adotada com competência política, há uma esperança: os assalariados e a classe média poderão voltar a conhecer o desenvolvimento.
Há aí, portanto, uma oportunidade – que não existe no caso do regime de política econômica liberal, que é dominante no Brasil desde 1990. Um governo liberal pode restabelecer o equilíbrio fiscal no Brasil, mas certamente não garantirá o equilíbrio cambial, porque seus economistas apostam no “crescimento com poupança externa” e na “austeridade”, a primeira causando do aumento do consumo e perda de competitividade das boas empresas industriais no Brasil (inclusive as multinacionais), a segunda sendo uma forma de fazer que o ajuste macroeconômico necessário seja pago apenas pelos assalariados, ao invés de ser dividido entre eles e os rentistas.
Sim, os muito ricos pagarão por seu luxo, mas continuarão a fazê-lo às custas dos trabalhadores e das classes médias. E tendo como bandeira a liberalismo econômico. Assalariados e classes médias só realmente se beneficiarão se o Brasil, afinal, voltar a crescer com base em um projeto nacional de desenvolvimento que garanta o equilíbrio macroeconômico e promova a diminuição gradual da desigualdade econômica.


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