A festa acabou

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Luiz Carlos Bressser-Pereira
Folha de S.Paulo, 27.8.2007.

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A crise financeira deste agosto de 2007 assinala o fim de um extraordinário ciclo de crescimento que a economia mundial experimentou nos últimos cinco anos. Está claro que os próximos dois ou três anos serão de ajustamento da economia à nova realidade.

A crise financeira desencadeada há três semanas marca o fim de um extraordinário ciclo de expansão da economia mundial, iniciado em 2003. Não se trata de um mero soluço do sistema financeiro internacional, mas de uma crise mais profunda, que afetará o lado real da economia. Suas causa imediata foi a especulação de famílias e principalmente de agentes financeiros com títulos imobiliários que começou em 2000, quando uma taxa de juros muito baixa e a elevação constante dos preços dos imóveis deram oportunidade para um processo retroalimentado de endividamento cada vez mais arriscado.
O pano de fundo em que se desen- rola a crise é dado pelo desequilíbrio da economia norte-americana como um todo, expresso em déficit público e déficit em conta corrente -um desequilíbrio que nasceu de dois movimentos perversos conjugados: a partir de 2003, os Estados Unidos lançaram-se em uma guerra sem inimigos a serem derrotados nem territórios a serem ocupados, a não ser aqueles inimigos e aqueles territórios criados pela potencia imperial, ao mesmo tempo em que, obedecendo a uma ideologia ultraliberal, reduziam os impostos sobre os ricos.
O quadro mais geral dessa crise é o de um capitalismo desregulado baseado nas finanças -um capitalismo no qual o poder financeiro aumentou sem parar nos últimos 30 anos, com a criação de um sem-número de agentes financeiros entre os poupadores e os bancos, principalmente os fundos de hedge e as empresas de "capital equity", e com a adoção por todos os agentes de uma série de "inovações" financeiras que deram origem a dois mercados novos, o de opções e o de futuros, e permitiram uma brutal alavancagem financeira.
A história do capitalismo é inequívoca a respeito de duas coisas: é um sistema de organização da produção dinâmico, que promove a alocação eficiente dos recursos e estimula a criatividade e a inovação, porque está baseado na competição no mercado. Mas, por essa mesma razão, é um sistema eminentemente instável, sujeito a crises financeiras graves. A instituição mercado é sabidamente incapaz de, no prazo necessário, evitar comportamentos abusivos dos seus agentes, a não ser que seja devidamente regulada pela instituição maior, que é o Estado.
Os efeitos da crise incidem, em primeiro lugar, nos próprios agentes do mercado financeiro. É inevitável, porém, que a crise também atinja a economia real, a produção e as exportações. A perda de confiança no dólar, que já vem ocorrendo há alguns anos, vai se acelerar num momento em que o Fed (Federal Reserve, o banco central dos EUA) não pode defendê-lo porque agravaria ainda mais a crise no mercado financeiro.
Uma maior depreciação da moeda norte-americana, portanto, parece inevitável, já que ela é também necessária para reequilibrar a conta corrente do país. Bastariam esses dois dados para que os investidores na economia real se retraiam.
O quadro se agravará se, passada a fase aguda da crise financeira, o Fed resolver voltar a elevar as taxas de juros. Ou então se os Estados Unidos e a Europa recorrerem a medidas protecionistas. É impossível fazer previsões mais precisas. Mas está claro que os próximos dois ou três anos serão de ajustamento da economia à nova realidade. Se houvesse sido apenas a festa financeira que acabou, não haveria muito a lamentar, mas é preciso reconhecer que a festa da grande prosperidade dos últimos anos terminou. Teremos tempos mais duros.


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