The Political Construction of Brazil

2017. An encompassing analysis of Brazil’s society, economy and politics since the Independence. A national-dependent interpretation. Three historical cycles of the relation state-society: State and Territorial Integration Cycle (1822-1929), Nation and Development Cycle (1930-1977) and Democracy and Social Justice Cycle (1977-2010). Crisis since then. (Book: Lynne Rienner Publishers)

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Macroeconomia Desenvolvimentista

2016. With José Luis Oreiro e Nelson Marconi. Our more complete analysis of Developmental Macroeconomics – the central economic theory within New Developmentalism. (book)

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Abre as portas a nova Daslu

Fred Melo Paiva

O Estado de S. Paulo, 12 de Junho de 2005

A senhora já deve ter visto a gente. Estamos aqui embaixo. Se olhar da janela em direção à Rua Funchal, vai ver um beco comprido. Se subir no heliporto da loja, vai reparar nos nossos telhados. É tudo meio disforme, uma casinha se escorando na outra, que é para não desabar. A gente quase não usa tijolo nem cimento - só um ou outro mais afortunado é que conseguiu levantar uma parede, bater a laje, fazer um reboco. A maioria de nós, como a senhora pode ver, preferiu usar madeira - quer dizer, pedaço de pau e chapa de compensado. Se a senhora consegue ver direitinho aí de cima, vai achar que a gente é bem porco. Isso porque o nosso beco está sempre meio molhado, uma água suja que corre no meio da rua. Mas, olha, não é culpa nossa não. A gente é pobre mas é limpinho. O problema é que aqui não tem rede de esgoto e são mais de 200 barracos, espalhados pelo beco, e mais oito vielas. Já viu a merda que isso dá, né? A senhora deve estar estranhando a quantidade de fio que sai daquele poste e se divide em vários outros, interligando tudo. É gato, menina. Tudo gato. E tem cachorro também. A senhora consegue ver aquele pit bull branco? É o Dólar. E o rottweiller? É o Fidel. Agora veja só que confusão: gato com cachorro, pit bull com criança, o esgoto passando no meio, música alta, vizinho fazendo churrasco na viela, todo mundo na rua em pleno dia de semana. Pois é. Isso aqui tem nome. Chama favela. E a gente gostaria de apresentar ela à senhora como uma forma de lhe dar as boas-vindas: Eliana Tranchesi, favela. Favela, Eliana Tranchesi.

A gente sabe que quando a senhora abriu a sua loja a senhora fez um tour com o pessoal para apresentar o prédio. A senhora, não - a filha do governador. Então a gente vai fazer um tour com a senhora aqui na favela. Faça o seguinte: desça daí e venha de a pé. O nosso beco chama Rua Coliseu e é a primeira à direita depois da porta da Daslu. Bem na esquina, a senhora vai encontrar o Genivaldo Francisco, o Geninho. O Geninho é tomador de conta dos carros que ele estaciona no beco. As vagas são todas dele, e é por isso que ele possui um cone sempre à mão. Ele tem 44 anos e mora na favela há 36. Fica o dia inteiro sentado numa cadeira preta bem na entradinha da favela. Diz ele que na loja da senhora "só entra grã-fino, só carrão, BMW etc. e tal". É que ele tá ali, sempre de olho. "O pessoal não é fraco, não", ele fala. A senhora não vai ter problemas para identificar o Geninho. Ele só anda bem arrumado, sempre na estica. A senhora, que gosta de moda, pode até puxar conversa. Ele vai explicar para a senhora que gosta mesmo é de camisa social. E que está sempre de gravata "porque o pessoal que estaciona comigo é de um nível um pouco elevado". O Geninho tem uma particularidade. Ele sabe essa história do Coliseu, que vem a ser o nome da nossa rua: "Diz que tinha um Coliseu lá nos Estados Unidos, ou por aí afora. Segundo eu tô sabendo, era onde eles pegavam uns evangélicos e davam para os leões. Isso se eu não estiver equivocado..."

O Geninho, senhora, o Geninho era "mindingo". Foi viciado em crack durante dez anos. Daí, diz ele, "Deus me tirou do lamaçal do pecado, da pinga, da maco


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