The Political Construction of Brazil

2017. An encompassing analysis of Brazil’s society, economy and politics since the Independence. A national-dependent interpretation. Three historical cycles of the relation state-society: State and Territorial Integration Cycle (1822-1929), Nation and Development Cycle (1930-1977) and Democracy and Social Justice Cycle (1977-2010). Crisis since then. (Book: Lynne Rienner Publishers)

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Macroeconomia Desenvolvimentista

2016. With José Luis Oreiro e Nelson Marconi. Our more complete analysis of Developmental Macroeconomics – the central economic theory within New Developmentalism. (book)

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De volta ao apartamento de Roberto Jefferson

Fernando Gabeira

Folha de S. Paulo, 4 de junho de 2005

Quando Lula e Roberto Jefferson jantaram juntos, escrevi um relato descrevendo o que via nas fotos. Falei de quase tudo o que as fotos mostravam, a arara de cabeça baixa, as bolsas das mulheres deixadas no sofá.
Lembro-me de que Lula parecia não estar totalmente ali. Havia alguma coisa em sua pose, uma certa recusa, uma dúvida na expressão corporal. Os fatos posteriores arrastaram as hesitações e ele se mostrou solidário com Jefferson quando aconteceu o escândalo.
Se fosse escolher um bom cenário para contar em teatro a história desse sobressalto brasileiro, apontaria o apartamento de Jefferson. Ali houve o encontro em que Lula já flutuava na sua ambigüidade. De um lado, o corpo arredio; de outro, aquela frase: "Assino um cheque em branco e o entrego nas mãos de Jefferson".
Isso é muito comum no Lula. Em todos nós, para dizer a verdade. Quando algo hesita no fundo, compensamos com uma frase categórica, algo que esmague verbalmente a dúvida e nos permita a ilusão de liquidar o dilema.
O sentido do jantar era mostrar o quanto Lula confiava em Jefferson, como estavam próximos. Ali, no mesmo lugar, o apartamento de Jefferson, aconteceria o desfecho poucas semanas depois. Dois ministros imploravam, segundo as versões não desmentidas, a Jefferson que não envolvesse o governo nos inúmeros depoimentos que teria pela frente.
Nesse ponto, a falha do autor. Descrevi o jantar inicial, mencionei a arara, as bolsas, a hesitação corporal de Lula, as aulas de canto de Jefferson, sua interpretação de "Eu Sei que Vou te Amar". Foi como se o jantar se fizesse por si próprio e voasse para a mesa, como um pássaro do cerrado. Esqueci-me da empregada da casa de Roberto Jefferson.
No segundo ato, ela tem um papel decisivo. Abriu a porta para os dois ministros, que haviam tentado visitar Jefferson duas vezes em vão. Por que abriu se o patrão queria se isolar? Os historiadores do futuro vão desvendar esse detalhe ou, talvez, deixar que mergulhe no limbo como tantos outros.
Aqui em Brasília, todos se apresentam na portaria. Há duas vozes que ouvimos com freqüência: a dos vendedores de água mineral e de gás. Pode ser que ela tenha se enganado com isso. Talvez, ao ouvir a campainha, tenha usado o olho mágico, que, na verdade, aumenta o ângulo de visão, transformando levemente o rosto.
Com uma visão limitada das faces, pode ter pensado que um ministro fosse o vendedor de gás, e o outro, mais encorpado, de óculos e com o rosto redondo, fosse o próprio dono do caminhão. Só viriam juntos se houvesse alguma conta atrasada, algo que comprometesse sua administração doméstica. Deve ter aberto a porta simplesmente para que tudo ficasse esclarecido.
As pessoas pensam assim, mas nem sempre os governos o fazem. É, entretanto, incorreto concluir que os governos são menos inteligentes do que pessoas isoladas. O diabo com eles é que costumam se meter em situações tão estreitas, no sentido de perderem a margem de manobra, que são condenados a cometer um erro atrás do outro.
Essa idéia não é minha. A primeira vez que tive contato com ela foi nos livros de Isaac Deutcher sobre Trótski. Ele falava das situações históricas nas quais a margem de manobra se estreitava e os dirigentes de um governo, ou mesmo de uma classe social, mergulhavam numa inevitável seqüência de erros.
Lula talvez não imaginasse as conseqüências do jantar. Jefferson cantava um amor por toda a vida. "Em cada ausência tua, eu vou chorar,/ mas cada volta tua há de apagar / a dor que a tua ausência me causou". A lua de Brasília


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