The Political Construction of Brazil

2017. An encompassing analysis of Brazil’s society, economy and politics since the Independence. A national-dependent interpretation. Three historical cycles of the relation state-society: State and Territorial Integration Cycle (1822-1929), Nation and Development Cycle (1930-1977) and Democracy and Social Justice Cycle (1977-2010). Crisis since then. (Book: Lynne Rienner Publishers)

Mais informações

Macroeconomia Desenvolvimentista

2016. With José Luis Oreiro e Nelson Marconi. Our more complete analysis of Developmental Macroeconomics – the central economic theory within New Developmentalism. (book)

Mais informações

Lá e Cá

Joaquim Falcão

Folha de S.Paulo, 3.12.2004

Um casal queria reformar o banheiro de sua casa. Transformá-lo em quarto para o filho e colocar aquecimento. Tomaram um empréstimo de cerca de R$ 25 mil. Faz 15 anos. Pagaram o que puderam, enquanto puderam. Agora não podem mais. É que a dívida aumentou em 67 vezes. Os juros anuais eram de 34,9%, compostos. A dívida ultrapassara R$ 1 milhão. O caso foi parar na Justiça. Na Justiça da Inglaterra, país de origem do casal.

O juiz considerou que "quando os juros anuais são tão altos quanto 34,9%, a combinação dos fatores é tão potencialmente exorbitante" que "grosseiramente se opõe aos princípios de uma negociação justa" -de "fair dealing", em inglês. E sentenciou: "O contrato é ruim e não pode ser executado, e isto basta". Zerou a dívida do casal.


Perdemos a capacidade e a autonomia cultural de criticar os exclusivismos monetários da política macroeconômica


Esse julgamento ocorreu em Southport, Merseyside. Nem por isso jornais como o "Independent" ou emissoras como a BBC acusaram o Poder Judiciário de não respeitar os contratos. Nem por isso missão do FMI, ONU ou Banco Mundial desembarcou por lá e acusou o país de criar clima hostil aos investimentos estrangeiros. Nem por isso economistas consagrados escreveram "papers" em outros idiomas apontando a insegurança jurisdicional como co-responsável pelos problemas econômicos nacionais. Nem por isso juízes de primeira instância foram acusados de sabotar a política econômica do governo.

Nada disso aconteceu por lá, mas provavelmente teria ocorrido no Brasil, por razão simples: ficamos incapazes de perceber o colonialismo cultural econômico em que nos metemos. Incapazes de perceber o manto diáfano com que o Consenso de Washington cobriu nossa realidade econômica. Perdemos a capacidade e a autonomia cultural de criticar os exclusivismos monetários da política macroeconômica.

Em nome de um futuro por todos desejado -estabilidade com desenvolvimento-, mas sempre adiado, o Brasil parece estar entorpecido demais para identificar os malefícios do permanente aumento da


Fale conosco: ceciliaheise46@gmail.com