The Political Construction of Brazil

2017. An encompassing analysis of Brazil’s society, economy and politics since the Independence. A national-dependent interpretation. Three historical cycles of the relation state-society: State and Territorial Integration Cycle (1822-1929), Nation and Development Cycle (1930-1977) and Democracy and Social Justice Cycle (1977-2010). Crisis since then. (Book: Lynne Rienner Publishers)

Mais informações

Macroeconomia Desenvolvimentista

2016. With José Luis Oreiro e Nelson Marconi. Our more complete analysis of Developmental Macroeconomics – the central economic theory within New Developmentalism. (book)

Mais informações

Alcântara e o Servilismo Voluntário

Rogério Cezar de Cerqueira Leite

Folha de S.Paulo, 31.8.2003

Iperó, Sivam, Alcântara e tantos outros seguem a mesma liturgia macabra, o mesmo roteiro suicida, como se houvesse uma mão invisível, inexorável, a compelir-nos. É preciso desvendá-la, expô-la, denunciá-la.

No contrato do governo brasileiro com o Eximbank americano para a realização do Sivam, estava expresso claramente que, quando não fosse encontrada uma empresa americana capaz de fornecer um certo produto, essa aquisição poderia ser feita em qualquer país, exceto o Brasil. Não é preciso muito esforço intelectual para concluir que o propósito dessa cláusula foi impedir que a indústria brasileira participasse do programa e se capacitasse tecnologicamente em um setor estratégico.

Para completar a liturgia do Sivam, o referido contrato excluía completamente a indústria nacional, a não ser pelo setor da construção civil. E os apoucados em neurônios, obedientes a essa mão invisível, ficaram profundamente agradecidos pela generosidade dos americanos, que não quiseram trazer da América edifícios e pontes pré-fabricados.

Também é verdade que umas quireras seriam distribuídas entre os servidores voluntários da mão invisível. Como consequência da inerente ineficácia decorrente da natureza do "pacote fechado" adotado pelo Sivam, um avião da Força Aérea francesa, um Hércules, que é pouco menor que um transatlântico, pôde invadir o território nacional, despercebido, 2.000 quilômetros adentro, sem ser molestado, e aterrissar incógnito no seio da floresta amazônica. Como Iperó não dependia de empréstimos externos, foi aplicada uma variante da liturgia convencional. Foi astuta a mão invisível: conseguiu indicar para o Ministério da Marinha um servo voluntário. Os dirigentes do programa de desenvolvimento de tecnologia de enriquecimento de urânio para uso em reatores para submarinos foram removidos, o fluxo de recursos financeiros estancado e o programa colocado em banho-maria. Era o golpe final em um longo roteiro, que começou com a supressão da aquisição dessa mesma tecnologia que havia sido negociada no Acordo Nuclear Brasil-Alemanha. Como Jacó, que aceitara, um pouco a contragosto, Lia em troca de "Raquel, serrana bela", o Brasil do general Geisel engole, conformado, uma duvidosa tecnologia que estava, então, engavetada havia 30 anos, a do jato centrífugo. E como Jacó, trabalhou o Brasil mais sete anos para desenvolver suas próprias ultracentrífugas. Mas eis que a mão invisível do servilismo voluntário se mostra mais cruel que Labão e, assim que é confirmado o sucesso tecnológico brasileiro, ocorre a intervenção em Iperó, e os servis voluntários voltam a brincar com a inofensiva tecnologia do jato centrífugo, a feiosa Lia. Novamente um avanço tecnológico importante é subtraído ao dócil e subserviente Jacó. E por que com Alcântara seria diferente? A mão invisível já revelara seu descontentamento com o programa espacial brasileiro em várias ocasiões; e, para que não houvesse dúvidas, tornou suas objeções absolutamente explícitas ao incluir no contrato de aluguel da base de Alcântara uma cláusula que proíbe o Brasil de usar os recursos advindos do pagamento dessa locação no programa espacial. É claro que ninguém acreditaria na eficiência dessa proibição, pois bastaria absorver os ditos recursos em outro item orçamentário e complementar o programa com quantia equivalente. Então, qual foi a intenção?

Só há uma resposta possível. É uma mensagem para seus submissos servos e um incentivo para que entrem em ação contra o pecaminoso projeto. E a mais eficaz, simples e sorrateira estratégia é asfixiar o projeto, fornecendo recursos suficientes apenas para que sobreviva vegetativamente, de maneira a não chamar a atenção da opinião pública. E assim foi feito.

Eis como atua a liturgia do servilismo voluntário, com duas vertentes: de um lado, a promessa do paraíso para os devotos obedientes, do outro, a punição com excomunhão e, até mesmo, a ameaça de serem incluídos na lista negra para os rebeldes recalci

Fale conosco: ceciliaheise46@gmail.com