The Political Construction of Brazil

2017. An encompassing analysis of Brazil’s society, economy and politics since the Independence. A national-dependent interpretation. Three historical cycles of the relation state-society: State and Territorial Integration Cycle (1822-1929), Nation and Development Cycle (1930-1977) and Democracy and Social Justice Cycle (1977-2010). Crisis since then. (Book: Lynne Rienner Publishers)

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Macroeconomia Desenvolvimentista

2016. With José Luis Oreiro e Nelson Marconi. Our more complete analysis of Developmental Macroeconomics – the central economic theory within New Developmentalism. (book)

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Muito Além da Planilha

Luís Nassif

Folha de S. Paulo, 7.8.2003


The exchange rate, and how to use economic models not as estereotypes but as a help to real thinking.
O ministro da Fazenda, Antonio Palocci Filho, sustentou que câmbio não é problema do Banco Central, mas apenas a inflação. Por trás dessa afirmação surpreendente -visto que, em qualquer economia, o câmbio é um dos preços principais- vêm os tais "modelos" desenvolvidos por acadêmicos.
"Modelos" são relevantes. Permitem correlacionar variáveis, quantificar efeitos de políticas etc. Para grandes economistas, os "modelos" são ferramentas auxiliares para a tomada de decisão. O economista analisa a realidade, identifica qual o problema central do momento, identifica eventuais fatores que possam comprometer o equilíbrio da economia e, depois, utiliza os modelos para calibrar a intensidade dos instrumentos de política econômica adotados.

O economista menos experiente, sem visão de conjunto, inverte a mão. Monta seu "modelo", escolhe qual a meta a ser perseguida e considera que todas as demais variáveis são decorrência do modelo proposto. Mesmo que uma variável possa estar visivelmente fora de equilíbrio, esse economista de planilha não consegue admitir. Como tem fé cega no seu modelo, considera que o desequilíbrio não existe ou, se existir, é questão de tempo para que a variável encontre o equilíbrio automática e milagrosamente, como mera decorrência da aplicação do modelo.

A variável que muitos analistas consideram fora do lugar é o câmbio. Não se trata de uma variável qualquer, mas do principal preço da economia. A médio prazo, um câmbio superdesvalorizado acarreta explosão de exportações -que, se não vier acompanhada de investimentos, pode provocar aquecimentos perigosos nos setores exportadores.

Mas um câmbio supervalorizado traz as seguintes consequências:
1) reduz o superávit comercial e aumenta a dependência de capitais especulativos;
2) nenhum investimento externo de longo prazo será feito enquanto não houver garantia de que o nível do câmbio é de equilíbrio;
3) com o aumento da dependência de capitais de curto prazo, é maior a probabilidade de mudança de humor no mercado, levando à fuga de recursos e à nova elevação do dólar;
4) nova elevação do dólar provocaria novamente inflação de custos;
5) a volta da inflação obrigaria o BC a aumentar novamente os juros, perpetuando a recessão na economia.

Ou seja, a estabilidade do câmbio é elemento central de qualquer política de combate à inflação e de desenvolvimento, e só se consegue estabilidade dependendo menos do capital especulativo. Isto é, tendo um câmbio que assegure a redução da vulnerabilidade externa.

Como se pode dizer, então, que o nível do câmbio não é problema de BC? É evidente que é. Por suas implicações sobre inflação, sobre a estabilidade econômica, sobre o desenvolvimento, o câmbio não é apenas mais uma variável a ser considerada: é a variável por excelência. Mas economistas sem visão sistêmica se tornam prisioneiros da sua planilha.

O monitoramento do nível ideal de câmbio exige um conhecimento que vai muito além das planilhas.

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